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História em quadrinhos retrata língua indígena de sinais

Por Redação Quilombo Mais em 06/03/2021 às 09:00:46
Divulgação UFPR

Divulgação UFPR

Uma história em quadrinhos (HQ) retrata, de forma pioneira, a l√≠ngua ind√≠gena de sinais utilizada pelos surdos da etnia terena, anunciou nesta semana a Universidade Federal do Paran√° (UFPR).

Segundo a universidade, a obra, produzida por Ivan de Souza, em trabalho de conclus√£o do curso de licenciatura em Letras Libras, tem o propósito de fortalecer o reconhecimento e a preserva√ß√£o das l√≠nguas de sinais ind√≠genas e é apresentada em formato pluril√≠ngue, sinalizada também na L√≠ngua Brasileira de Sinais (Libras).

A UFPR lembra que comunica√ß√£o por meio da l√≠ngua materna é importante pois ajuda a manter viva a cultura, a identidade e a história dos povos ind√≠genas.

Nas aldeias da etnia terena, localizadas principalmente no estado de Mato Grosso do Sul, a l√≠ngua oral terena é amplamente utilizada. Os surdos dessa etnia também se comunicam com sinais diferentes dos pertencentes ao sistema lingu√≠stico utilizado pelos surdos no Brasil (Libras). Após diversas pesquisas, especialistas conclu√≠ram que esses sinais constituem um sistema autônomo, chamado l√≠ngua terena de sinais.

Cultura indígena

O trabalho de conclus√£o do curso de licenciatura em Letras Libras da Universidade Federal do Paran√° (UFPR) teve in√≠cio em 2017, quando o estudante pesquisava a história dos surdos no Paran√°, na inicia√ß√£o cient√≠fica.

De acordo com a universidade, todo o processo teve acompanhamento de pesquisadoras que j√° desenvolviam atividades com os terena surdos, usu√°rios da l√≠ngua terena de sinais. A comunidade ind√≠gena também teve participa√ß√£o ativa no desenvolvimento e depois, na valida√ß√£o da obra junto ao seu povo.

Para a ind√≠gena Ma√≠za Antonio, professora de educa√ß√£o infantil continuar pesquisando o tema é importante para que os próprios integrantes das aldeias entendam melhor os sinais utilizados por parte de seu povo.

Ind√≠gena da etnia terena, ela trabalha com a l√≠ngua materna na escola da comunidade. "Nossos alunos t√™m optado por estudar na cidade, por n√£o estarmos preparados para receb√™-los em nossa escola. Essa história em quadrinhos servir√° como material did√°tico para trabalharmos com os alunos surdos e como incentivo para que nós, professores, busquemos novas ferramentas de ensino nessa √°rea", disse, em entrevista ao site da UFPR.

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Sinal√°rio

Souza e os especialistas que o auxiliaram no projeto também desenvolveram um "sinal√°rio", isto é, um registro em Libras dos principais conceitos apresentados na narrativa visual e um gloss√°rio pluril√≠ngue abrangendo palavras utilizadas no dia a dia da comunidade. "Levantamos os vocabul√°rios que mais se repetiam e organizamos em uma planilha. Depois buscamos localizar os sinais j√° existentes em sites e aplicativos. Filmamos os sinais e disponibilizaremos esse material no YouTube, com o objetivo de expandir o conhecimento sobre as l√≠nguas sinalizadas e de minimizar a barreira lingu√≠stica", explica.

De acordo com o autor, o trabalho tem relev√Ęncia para os ind√≠genas da comunidade terena e de outras etnias e para a sociedade em geral.

"Esse é mais um material dispon√≠vel para os terena ensinarem sua história de forma acess√≠vel a ouvintes e surdos. É importante também para mostrar à sociedade como existem povos, culturas, identidades e l√≠nguas diferentes no pa√≠s. E que essa diversidade precisa ser respeitada, preservada e valorizada".

O jovem escritor tem esperan√ßa de que o trabalho possa despertar a sensibilidade para com os povos ind√≠genas e para as demais l√≠nguas de sinais presentes no Brasil. Outro objetivo do autor é que, com o reconhecimento dessas l√≠nguas autônomas de sinais, torne-se poss√≠vel que surdos ind√≠genas tenham, de fato, o direito de serem ensinados em sua l√≠ngua materna garantido, assim como apregoado na Constitui√ß√£o Federal. Ele pretende distribuir a HQ em escolas ind√≠genas.

Segundo a UFPR, além de possibilitar a dissemina√ß√£o e a preserva√ß√£o da l√≠ngua terena de sinais, a história tem o propósito de evidenciar a cultura e a história desse povo. O estudante cita uma das pesquisadoras que trabalhou com ele nesse projeto para definir o que pensa sobre o tema. "Cada l√≠ngua reflete um modo de ver o mundo, um modo diferente de pensar. Se perdemos uma l√≠ngua, perdemos possibilidades, perdemos a capacidade de criar, imaginar, pensar de um modo novo e talvez até mais adequado para uma dada situa√ß√£o", indica Priscilla Alyne Sumaio Soares em sua tese de doutorado intitulada L√≠ngua Terena de Sinais. "Só podemos preservar aquilo que é registrado e esse é um dos nossos objetivos, preservar uma pequena parte da história do povo terena por meio da HQ", afirma Souza.

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A história

A obra Sol: a pajé surda ou Séno Mókere K√°xe Koixómuneti, em l√≠ngua terena, conta a história de uma mulher ind√≠gena surda anci√£ chamada K√°xe que exerce a fun√ß√£o religiosa de pajé (Koixómuneti) em sua comunidade. Ao ser procurada para auxiliar em um parto e após pedir a ben√ß√£o dos ancestrais para o recém-nascido, o futuro do povo terena é revelado e transmitido a ela em sinais. "A história mostra um pouco da rica cultura desse povo, as situa√ß√Ķes, consequ√™ncias e resist√™ncia após o contato com o povo branco", revela Souza.

Inspirada na história real do povo terena, a narrativa apresenta a comunidade em uma época em que ela ainda vivia nas Antilhas e era designada pelo nome Aru√°k.

A pajé K√°xe, procurada por uma mulher em trabalho de parto, ajuda no nascimento do pequeno Ilhakuokovo.

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Trajetória dos terena

A partir da√≠, a obra ilustra um pouco da trajetória desses ind√≠genas e da sua instala√ß√£o em território brasileiro. Buscando caminhos que levasse aos Andes, em meados do século XVI, os espanhóis estabeleceram rela√ß√Ķes com os terena, à época chamados de Guan√°, na regi√£o do Chaco paraguaio. A chegada dos brancos acarretou muitas mudan√ßas nas vidas dos ind√≠genas, que procuraram, durante certo per√≠odo, locais onde pudessem exercer seu modo de vida sem a influ√™ncia da coloniza√ß√£o.

Assim esse povo chegou ao Brasil, no século XVIII, e se instalou na regi√£o do Mato Grosso do Sul. Mesmo em outras terras, os conflitos trazidos pela coloniza√ß√£o ainda eram um problema. A Guerra do Paraguai envolveu os terena, que foram for√ßados a participar para garantir seus territórios e, no conflito, perderam muitos membros de sua comunidade. Após a guerra, quest√Ķes territoriais continuaram causando embates. Nesse per√≠odo, os terena se viram obrigados a trabalhar nas fazendas da regi√£o, situa√ß√£o que ocasionou a servid√£o dos ind√≠genas.

Segundo a UFPR, com informa√ß√Ķes da Comiss√£o Pró-√≠ndio de S√£o Paulo, algumas fam√≠lias dessa popula√ß√£o ind√≠gena se mantiveram às margens das fazendas, ocupando pequenos n√ļcleos familiares irredut√≠veis à coloniza√ß√£o. Foram essas ocupa√ß√Ķes que, regularizadas no in√≠cio de século XX, formaram as Reservas Ind√≠genas de Cachoeirinha e Taunay/ Ipegue.

A orientadora do trabalho e coordenadora do projeto de pesquisa institucional HQs Sinalizadas, Kelly Priscilla Lóddo Cezar, destaca que trabalhar com diferentes l√≠nguas envolve conhecimentos históricos com e sem registros escritos." É necess√°ria uma grande entrega à pesquisa e o Ivan fez isso com louvor. Além de encantar o povo terena com a HQ, os pesquisadores participantes e colaboradores se encantaram com seu empenho e sua autonomia invej√°vel, permeados de humildade".

As ilustra√ß√Ķes da HQ foram feitas por Julia Alessandra Ponnick, que é acad√™mica do curso de Design Gr√°fico da UFPR, autora, ilustradora e roteirista de histórias em quadrinhos. A defesa do TCC de Souza est√° agendada para o final de mar√ßo, com o lan√ßamento oficial da história.

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HQs sinalizadas

O projeto da UFPR HQs Sinalizadas trabalha com temas transversais dos artefatos da cultura surda – história, l√≠ngua, cultura, sa√ļde. O objetivo é criar, aplicar e analisar histórias em quadrinhos sinalizadas como uso de sequ√™ncias did√°ticas bil√≠ngues para o ensino de surdos. Além da elabora√ß√£o de materiais bil√≠ngues capazes de auxiliar na aprendizagem, a proposta permite aprofundar os estudos lingu√≠sticos como pr√°tica social.

Todas as HQs produzidas pelo grupo apresentam v√≠deos sinalizados, desenhos, ilustra√ß√Ķes e escrita do portugu√™s. "Essas linguagens podem ser utilizadas, especialmente, quando a proposta destina-se a contemplar os temas transversais como ética, orienta√ß√£o sexual, meio ambiente, sa√ļde, pluralidade cultural, trabalho e consumo, congregando professores e pesquisadores de diferentes √°reas do conhecimento", sugere Kelly.

*Com informa√ß√Ķes da Universidade Federal do Paran√° (UFPR)

Fonte: Agência Brasil

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