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Sazonalidade da produção permite férias anuais a produtores de leite de Xanxerê

Por Redação Quilombo Mais em 04/04/2021 às 21:38:36

Um jovem casal de produtores de leite de Xanxer√™, no Oeste Catarinense, implantou um sistema de produ√ß√£o que permite algo incomum na atividade: tirar férias anuais. Celis Andressa Gaspareto, de 35 anos, e André Rego, 36, ficaram fascinados pela praticidade do manejo que conheceram em uma propriedade australiana, que permitia a duas pessoas dar conta de 150 vacas em lacta√ß√£o e ainda ficar ausente da propriedade por até 30 dias no ano – algo impens√°vel na bovinocultura leiteira no Brasil, j√° que a rotina da ordenha é di√°ria por aqui.

Além da sazonalidade da produ√ß√£o e de toda a efici√™ncia na m√£o de obra, os diferenciais do sistema de produ√ß√£o de leite daquele país est√£o no manejo para um solo fértil, no uso de forrageiras com qualidade nutritiva, na genética animal apropriada, na organiza√ß√£o da propriedade e na √™nfase no bem-estar animal. "L√° as vacas eram muito saud√°veis e era comum ter animais produtivos aos 10 anos de idade. Elas tinham excelente sanidade e produziam um leite de altíssima qualidade. Vimos que era possível produzir leite em uma pequena √°rea, com boa renda e qualidade de vida", relata Celis.

A implanta√ß√£o da pastagem foi o primeiro passo dado pelo casal na propriedade em Xanxer√™. Foto: Arquivo da família

Ali√°s, a qualidade de vida foi o principal atrativo da atividade que impulsionou a jovem recém-formada em veterin√°ria a retomar a propriedade da família, arrendada desde que ela tinha um ano de vida, quando perdeu o pai. Era l√° que Celis queria desenvolver sua atividade profissional e formar uma família. Mas foi do outro lado do mundo que ela conheceu o futuro parceiro de vida e de trabalho, quando estagiaram juntos na mesma propriedade na Austr√°lia: o técnico em agropecu√°ria Andre Rego, natural de Santa Fé do Sul (SP). Ao retornarem ao Brasil, eles se casaram e se tornaram sócios na produ√ß√£o leite. Anos depois a família aumentou com a chegada dos filhos, Valentin de quatro anos e Martín de quase dois anos de idade.

Desde 2012, o casal brasileiro est√° adaptando a propriedade para aderir a todas as pr√°ticas vivenciadas na fazenda australiana. Iniciaram sem estrutura alguma e atualmente os dois produtores d√£o conta de um rebanho de 50 vacas, com produ√ß√£o anual de cerca de 230 mil litros de leite, índices ainda em crescimento.

Desde o come√ßo da atividade em Xanxer√™, eles contaram com a assist√™ncia da Epagri através dos extensionistas do município, Edy Alexandre Bortuluzzi e Dulcinéia Censi, mas a troca de informa√ß√Ķes com produtores australianos também foi muito importante.

Ajuste da produ√ß√£o à qualidade do pasto

A alimenta√ß√£o dos animais é à base de pasto, mas quando necess√°rio o casal lan√ßa m√£o de pré-secado. Foto: Aires Mariga


Uma das pr√°ticas adotadas pelo casal foi o ajuste da produ√ß√£o de leite ao ciclo de crescimento do pasto. Na propriedade deles, as vacas iniciam a lacta√ß√£o no outono, finalizando o período de pari√ß√£o em maio. Dessa forma o pico de lacta√ß√£o se d√° no inverno e a produ√ß√£o se estende até o ver√£o, quando a pastagem atinge o √°pice de crescimento e por consequ√™ncia a produ√ß√£o de leite tem maior estabilidade.

Para que isso aconte√ßa, Celis e Andre promovem a chamada esta√ß√£o de monta, fazendo com que as vacas fiquem prenhas na mesma época. A lacta√ß√£o de todas acontece no mesmo período, permitindo o sucesso do modelo de produ√ß√£o à base de pasto em piquetes rotacionados. Para que o ciclo reprodutivo dos animais aconte√ßa simultaneamente, o cio é induzido por hormônios. A insemina√ß√£o artificial é feita respeitando o período de dois meses (junho e julho) e por fim ocorre a monta natural para repasse.

O pré-secado é dado aos animais em alimentador móvel, que é disposto em uma √°rea de descanso. Foto: Celis Gaspareto


Após a confirma√ß√£o de prenhez, em até 60 dias n√£o h√° mais manejo reprodutivo até a próxima pari√ß√£o. "Se n√£o fizer a esta√ß√£o de monta, no dia sempre tem uma vaca para inseminar, bezerra para alimentar, vaca para secar, outra parindo, e o trabalho é intenso o ano todo. Com a forma que adotamos é possível estratificar o trabalho, que é intenso em quatro meses e rotineiro nos demais oito meses", diz Celis.

Na secagem das vacas, entre fevereiro e mar√ßo, é o período que possibilita o casal tirar férias. Para isso se faz necess√°rio a contrata√ß√£o de uma única pessoa para vistoriar o rebanho, fazer as trocas de piquete e fornecer sal mineral ou ra√ß√£o pré-parto. Alguns dos destinos do casal s√£o Minas Gerais e S√£o Paulo, onde moram os familiares de André.

Manejo da pastagem

A pastagem é tratada como lavoura: na propriedade s√£o cultivadas variedades altamente produtivas, que contam com sistema de irriga√ß√£o. Foto: Celis Gaspareto


Na propriedade australiana onde André e Celis estagiaram, antes de serem produtores de leite, os agricultores s√£o produtores de pasto, tratando-o como lavoura, aplicando fertilizantes, irriga√ß√£o e manejo adequado com pastoreio rotativo. Segundo o engenheiro-agrônomo aposentado da Epagri Airton Spies, esse modelo de produ√ß√£o foi trazido da Nova Zel√Ęndia, que prova o sucesso das pr√°ticas adotadas ao ser o maior exportador mundial de leite. Ele relata que atualmente 85% do volume produzido naquele país v√™m de pasto que as vacas colhem diretamente do campo em pastoreio e 15% vem de volumosos e concentrados processados em forma de feno, silagem ou ra√ß√£o.

A implanta√ß√£o do pasto, portanto, foi o primeiro passo dado pelo casal brasileiro. Atualmente eles contam com sete hectares de pastagens irrigadas, divididas em 28 piquetes de 2,5 mil metros quadrados cada. A variedade anual utilizada é a √Āries, com sobressemeadura de aveia e trevo no inverno. Cada lote de animais fica em torno de 12 horas em cada piquete.

O casal adota o sistema silvipastoril, onde o pasto é sombreado e traz conforto térmico aos animais. Foto: Aires Mariga


Por recomenda√ß√£o da Epagri, o casal adota o sistema silvipastoril, onde o pasto é sombreado. No referido sistema, as √°rvores s√£o benéficas para o solo, para a produ√ß√£o e a qualidade da forragem e principalmente para os animais, que t√™m como principal vantagem o conforto térmico. O desafio desse modelo é a escolha da pastagem adequada, que precisa ser de espécies com adapta√ß√£o ao sombreamento. Para isso, o casal conta com resultados de pesquisas das Epagri sobre o desempenho de pastagens em sistemas sombreados.

As vacas recebem ração balanceada durante a ordenha, fornecida em alimentador automatizado. Foto: Aires Mariga


As vacas t√™m literalmente sombra e √°gua fresca. Mas quando necess√°rio, o casal lan√ßa m√£o de pré-secado, que é produzido por eles em cinco hectares arrendados da propriedade vizinha do tio de Celis. Eles explicam que essa alimenta√ß√£o complementar ocorre principalmente quando o inverno é chuvoso e a pastagem n√£o é suficiente. Para isso eles usam um alimentador móvel, que é disposto em uma √°rea de descanso. Outro alimento das vacas é a ra√ß√£o balanceada durante a ordenha, fornecida em alimentador automatizado, que n√£o permite o manuseio pelos agricultores – o que facilita o trabalho e diminui o tempo das vacas na sala. "Aprendemos que as instala√ß√Ķes devem estar preparadas para receber os animais e devem ser funcionais", ressalta Andre.

Sala de ordenha funcional

A sala de ordenha é um espa√ßo compacto com conten√ß√£o espinha de peixe e capacidade para nove vacas de cada lado. Foto: Celis Gaspareto


A ordenha das 50 vacas acontece em uma hora em um espa√ßo compacto e funcional com conten√ß√£o espinha de peixe de seis metros de comprimento, cocho frontal com capacidade para nove vacas de cada lado, e equipado com sistema de extra√ß√£o de ordenha e medi√ß√£o de leite. O contato físico com as vacas é mínimo. "Tudo isso diminui o estresse dos animais e faz com que eles produzam mais leite em menor tempo. Eles entram na sala e sabem que um pasto novinho os espera após a ordenha, em novo piquete", diz Celis.

Ambiente é equipado com sistema de extra√ß√£o de ordenha e medi√ß√£o de leite. Foto: Aires Mariga

Genética adequada

Spies salienta que no modelo de produ√ß√£o neozeland√™s, a vaca é considerada uma "m√°quina" capaz de converter pasto em dinheiro, "colhendo" o pasto e convertendo-o no m√°ximo de sólidos de leite. Mas além de pastagem de qualidade, é preciso contar com ra√ßas leiteiras adequadas. Na propriedade do casal de Xanxer√™, 90% do rebanho s√£o formados por Jersey e as demais s√£o cruzas de Holand√™s com Friesian, ra√ßa de porte menor e com genética vinda da Nova Zel√Ęndia. "A gente usa genética que vem h√° mais de 100 anos de vacas a pasto, animais que precisam andar muito para pegar o alimento", diz André. Essas características também s√£o levadas em conta no momento da insemina√ß√£o artificial.

Extensionista Edy Alexandre acompanha o rebanho da propriedade, formado por 90% de Jersey e 10% de são cruzas de Holandês com Friesian. Foto: Aires Mariga


Outra estratégia diferenciada do modelo adotado pelo casal é a padroniza√ß√£o do porte das vacas: o peso de cada um é praticamente o mesmo, cerca de 450Kg. "Isso permite que elas recebam a mesma quantidade de ra√ß√£o. Nesse sistema n√£o podemos diferenciar quantidade desse alimento, j√° que os alimentadores s√£o automatizados. Outro fator é o tamanho da sala de ordenha, que foi projetado para abrigar uma quantidade determinada de animais de determinado tamanho", explica Andre.

Sanidade animal X qualidade do leite

O status sanit√°rio do rebanho e o bem-estar dos animais s√£o dois fatores que andam juntos e s√£o fundamentais para o sucesso nesse modelo de produ√ß√£o. Andre ressalta que os problemas sanit√°rios enfrentados por eles s√£o mínimos, pois os animais vivem no campo e se exercitam à vontade, resultando no que denominam de "vacas felizes".

O animais vivem no campo e se exercitam à vontade, o que garante uma excelente saúde e sanidade do rebanho. Foto: Aires Mariga


Mas quando a mastite aparece, o controle rigoroso e r√°pido é fundamental para a manuten√ß√£o de qualidade do leite. A mastite é uma inflama√ß√£o nas gl√Ęndulas mam√°rias que compromete a saúde dos animais e a qualidade do leite. Segundo Celis, no inverno a propens√£o para o surgimento da mastite é maior, pois essa esta√ß√£o do ano costuma ser muito fria e chuvosa na regi√£o. "Mas o rebanho t√™m passando bem por esse período, a contagem de células som√°ticas n√£o aumentou. Na Austr√°lia também tínhamos o problema do barro nas épocas chuvosas, mas percebíamos como as vacas eram resistentes, resultado de todo o manejo realizado", diz a produtora.

A contagem de células som√°ticas (CCS) é uma ferramenta que indica a saúde da gl√Ęndula mam√°ria de vacas leiteiras. Vacas sadias possuem valores de CCS de até 200.000 células/mL de leite. Além das perdas na produ√ß√£o de leite, a eleva√ß√£o da CCS contribui de forma negativa também com o aumento dos custos com tratamentos, descarte de leite, altera√ß√£o na composi√ß√£o do leite (diminui√ß√£o da gordura, caseína e lactose) e perda da bonifica√ß√£o no pagamento do produto pelos laticínios. Para este controle o casal realiza a coleta de amostra individual de cada vaca, que é enviada ao laboratório mensalmente.

Celis e Andre contam com um resfriador com capacidade para dois mil litros, que garante a qualidade do leite após a ordenha. Foto: Aires Mariga


Outro fator que impacta na qualidade do leite é a r√°pida refrigera√ß√£o após a ordenha. Celis e Andre contam com um resfriador com capacidade para dois mil litros. A qualidade do leite do rebanho permite que eles recebam uma bonifica√ß√£o de 20 centavos a mais pelo litro, pagos por uma cooperativa da regi√£o. Como o sistema de produ√ß√£o à base de pasto é de baixo custo, isso resulta em mais lucros na atividade.

Gest√£o da propriedade

Desde 2015 as atividades produtivas t√™m os dados organizados em uma planilha acompanhada pela Epagri, usada para que o casal fa√ßa um diagnóstico da propriedade a cada dois anos. Eles usam também um software fornecido pela cooperativa, onde armazenam dados do rebanho, como controle reprodutivo, controle e qualidade do leite, dentre outros. Segundo eles, esse acompanhamento é fundamental para avaliar se a atividade est√° gerando lucro e quais altera√ß√Ķes devem ser feitas para melhorar os resultados. "Tudo auxilia nas tomadas de decis√Ķes", diz Celis.

Busca contínua pela efici√™ncia

Os pequenos Valentin e Martín participam das atividades cotidianas da propriedade. Foto: Celis Gaspareto


Celis e Andre est√£o muitos satisfeitos com a atividade e afirmam estar próximos a meta de produ√ß√£o, que é de 275 mil litros de leite por ano. Em 2012, quando come√ßaram, a produ√ß√£o era de 3,5 mil litros mensais e em 2020 chegaram a produzir 28 mil litros em um m√™s. "Nossa busca é contínua pela efici√™ncia na parte reprodutiva, para alcan√ßarmos menores índices de descarte anual. Também queremos ser muito eficientes na produ√ß√£o de pastagem" ressalta Celis. Mesmo com uma busca contínua por melhorias, André afirma que o casal tem a vida que planejou. "Aqui criamos nossos filhos com qualidade de vida", diz ele.

Uma pr√°tica que eles est√£o introduzindo é a homeopatia, difundida pela Epagri e com excelentes resultados na sanidade do animal, pois é capaz de controlar os principais problemas do rebanho de maneira r√°pida, eficiente, com menos gastos e de forma sustent√°vel. E sustentabilidade é a palavra de ordem na propriedade: lan√ßar m√£o de tecnologias para produzir mais com menos recursos, reduzindo a demanda por insumos n√£o renov√°veis ou intensivos em energia.

A op√ß√£o do casal pela produ√ß√£o de leite é um exemplo de como a atividade em Santa Catarina est√° rejuvenescendo. Foto: Aires Mariga


Como se v√™, a propriedade est√° em constante evolu√ß√£o. "Neste último ano foi melhorado o sistema de ordenha com instala√ß√£o do conjunto de extra√ß√£o e medi√ß√£o de leite, terceiriza√ß√£o na recria de bezerras e novilhas e melhorias na casa de moradia pensando no bem-estar tanto animal quanto da família. Pra mim é um aprendizado trabalhar com a família, pois eles priorizam muito o tempo, além da receptividade que é uma característica da popula√ß√£o de nossa regi√£o", diz o extensionista rural da Epagri no município, Edy Alexandre.

A op√ß√£o do casal pela produ√ß√£o de leite é um exemplo de como a atividade em Santa Catarina est√° rejuvenescendo. Com mais tecnologia, maior produtividade e pre√ßo competitivo, a bovinocultura leiteira tem se tornado mais leve e mais lucrativa, atraindo os jovens agricultores catarinenses.



Fonte/Foto:Epagri

Fonte: Epagri

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