
O turismo brasileiro vive um dos seus melhores momentos das últimas décadas. Dados do relatório Tendências e Políticas do Turismo 2026, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), revelam que o Brasil registrou um crescimento de 46% no número de turistas internacionais entre 2019 e 2025, passando de 6,3 milhões para 9,3 milhões de visitantes. Com esse resultado, o país ocupa a quarta posição mundial em crescimento no fluxo de turistas estrangeiros, superando destinos tradicionais como Japão, Portugal, Espanha e França.
Mais do que um dado estatístico, esse desempenho demonstra que o Brasil voltou ao radar do turismo internacional e possui uma oportunidade concreta de consolidar sua posição como um dos grandes destinos turísticos do mundo.
Poucos países reúnem uma diversidade tão ampla quanto o Brasil. Em um único território é possível encontrar praias, serras, florestas, cânions, cultura indígena, tradições europeias, gastronomia regional, festas populares e experiências rurais autênticas.
Esse conjunto de atrativos permite que o país deixe de ser reconhecido apenas pelo turismo de sol e praia para oferecer experiências durante todo o ano, atendendo aos novos perfis de viajantes que buscam vivências, autenticidade e contato com a cultura local.
O crescimento apontado pela OCDE confirma que existe demanda internacional por esse tipo de turismo e que o Brasil possui espaço para ampliar ainda mais sua participação nesse mercado.
Dentro desse cenário, Santa Catarina ocupa uma posição privilegiada.
Embora seja reconhecida pelas praias, o estado possui um patrimônio muito mais amplo e diversificado, capaz de atrair visitantes durante as quatro estações do ano.
Entre os principais segmentos que podem impulsionar ainda mais o turismo catarinense destacam-se:
As tradições dos povos italianos, alemães, poloneses, ucranianos e caboclos transformam Santa Catarina em um verdadeiro mosaico cultural.
Museus, igrejas históricas, festas típicas, arquitetura, música, dança, artesanato e manifestações populares oferecem experiências únicas para visitantes brasileiros e estrangeiros.
Mais do que preservar a história, investir na cultura significa transformar identidade em desenvolvimento econômico.
O comportamento do turista mudou.
Hoje, muitos visitantes procuram tranquilidade, contato com a natureza e experiências genuínas.
Nesse contexto, o turismo rural ganha cada vez mais importância.
Propriedades familiares podem oferecer:
Hospedagem rural;
Cafés coloniais;
Trilhas e passeios ecológicos;
Experiências na produção agrícola;
Colheita de frutas;
Fabricação artesanal de queijos, embutidos, vinhos, mel e geleias;
Vivências ligadas ao campo.
Além de gerar renda complementar às famílias, o turismo rural fortalece a permanência das novas gerações no meio rural e valoriza a agricultura familiar.
Poucos elementos aproximam tanto um visitante da cultura local quanto a gastronomia.
Santa Catarina reúne uma enorme riqueza gastronômica:
Queijos artesanais;
Vinhos e espumantes;
Cervejas artesanais;
Salames e embutidos;
Cafés coloniais;
Culinária típica italiana e alemã;
Frutos do mar;
Produtos da agricultura familiar.
Mais do que alimentação, esses produtos representam identidade, tradição e oportunidade de negócios.
Roteiros gastronômicos bem estruturados incentivam o consumo local, fortalecem pequenos empreendedores e ampliam o tempo de permanência dos turistas nas cidades.
O crescimento do turismo internacional mostra que não são apenas os grandes centros que podem se beneficiar.
Municípios de pequeno porte possuem características que o turista moderno procura:
Autenticidade;
Hospitalidade;
Natureza preservada;
Tranquilidade;
Experiências exclusivas;
Produção artesanal.
Regiões como o Oeste Catarinense possuem enorme potencial para desenvolver roteiros integrados envolvendo turismo rural, gastronomia, eventos culturais, agroindústrias familiares e ecoturismo.
O segredo está em transformar aquilo que muitas vezes é visto como rotina pelos moradores em experiências memoráveis para quem visita.
Investir em turismo significa investir em toda a economia local.
Cada visitante movimenta diversos setores simultaneamente:
Hotéis e pousadas;
Restaurantes;
Comércio;
Postos de combustíveis;
Transporte;
Agroindústrias;
Produtores rurais;
Artesãos;
Guias turísticos;
Empresas de eventos.
O resultado é geração de emprego, aumento da renda, fortalecimento das empresas locais e melhoria da qualidade de vida da população.
Os números apresentados pela OCDE demonstram que o Brasil vive um cenário extremamente favorável para ampliar sua participação no turismo internacional.
Para Santa Catarina, especialmente para os municípios do interior, este é o momento de estruturar produtos turísticos, fortalecer a identidade regional, incentivar o empreendedorismo e investir em experiências capazes de encantar visitantes.
O turista atual não busca apenas conhecer um destino. Ele deseja viver histórias, experimentar sabores, conhecer pessoas e levar consigo memórias únicas.
Santa Catarina já possui todos esses ingredientes. O próximo passo é transformá-los em oportunidades permanentes de desenvolvimento, consolidando o turismo cultural, rural e gastronômico como pilares de crescimento econômico sustentável para as próximas décadas.
Na minha atuação como Agente de Desenvolvimento e responsável pela pasta de Turismo do Município de Santiago do Sul (SC), tenho percebido um desafio que se repete em muitas comunidades do interior: ainda não conseguimos reconhecer nossos próprios lugares, nossa cultura, nossas tradições e até mesmo nossa gastronomia como verdadeiros produtos turísticos de alto valor.
Fomos ensinados, durante gerações, que produzir significa plantar soja, milho, criar gado ou produzir leite em larga escala. Essas atividades continuarão sendo fundamentais para a economia e merecem todo o reconhecimento. No entanto, acredito que existe um potencial extraordinário que ainda exploramos muito pouco: transformar nossa identidade em experiência.
Um café colonial preparado com receitas de família, um queijo artesanal, uma propriedade rural aberta à visitação, uma trilha em meio à natureza, uma festa típica, uma roda de conversa sobre a história da comunidade ou um almoço servido no interior podem gerar muito mais do que renda. Eles criam conexões, valorizam nossa cultura, fortalecem as famílias, movimentam a economia local e proporcionam uma excelente qualidade de vida para quem vive no campo.
Ao longo da minha experiência, tenho defendido que o turismo não substitui a agricultura; ele agrega valor àquilo que já produzimos. Em muitos casos, vender uma experiência, uma história ou um modo de vida pode gerar maior retorno econômico do que comercializar apenas a matéria-prima. É produzir com mais identidade, mais valor agregado e maior rentabilidade, preservando as tradições e criando novas oportunidades para as futuras gerações.
Acredito que precisamos aprender a olhar para o nosso território com os olhos de quem nos visita. Aquilo que para nós parece comum pode ser exatamente o motivo que leva um turista a percorrer centenas de quilômetros para conhecer nossa região. Nossa cultura, nossa hospitalidade, nossa gastronomia, nossas paisagens e nossa história são riquezas que não podem permanecer invisíveis.
Tenho convicção de que o futuro do desenvolvimento regional passa pela capacidade de integrar produção, cultura, empreendedorismo e turismo. Quando compreendermos que o interior não produz apenas alimentos, mas também experiências memoráveis, estaremos dando um passo importante para construir uma economia mais diversificada, sustentável e capaz de gerar renda com qualidade de vida para quem escolheu viver e empreender no campo.
Maikon Tiago Lunedo
Agente de Desenvolvimento e responsável pela pasta de Turismo do Município de Santiago do Sul (SC).
