
Durante muito tempo, quando se falava em turismo, a imagem que vinha à cabeça era a de grandes cidades, praias famosas, parques temáticos ou destinos internacionalmente conhecidos.
Mas existe uma outra realidade acontecendo longe dos grandes centros: pequenas cidades também possuem força turística.
E, muitas vezes, essa força está justamente naquilo que elas têm de mais simples e autêntico: sua história, sua cultura, suas paisagens, suas tradições e, especialmente, sua fé.
O turismo religioso é um dos exemplos mais claros de como um município pequeno pode receber visitantes, movimentar o comércio, fortalecer restaurantes, meios de hospedagem, transporte, artesanato e serviços e, ao mesmo tempo, preservar elementos importantes da sua identidade.
Não se trata apenas de levar pessoas até uma igreja, uma capela, um santuário ou um espaço de peregrinação.
Trata-se de criar uma experiência.
Dados do Ministério do Turismo ajudam a dimensionar a relevância desse segmento.
Em levantamento divulgado pelo próprio Ministério, as viagens motivadas pela fé já representavam milhões de deslocamentos de brasileiros pelo país. Em estudo mais recente sobre o segmento, o órgão destaca que o turismo religioso gera emprego e renda e pode contribuir para consolidar municípios como destinos turísticos e melhorar a qualidade de vida das comunidades quando desenvolvido de maneira estruturada.
O Ministério também aponta que as festas religiosas, peregrinações, romarias, rituais, festejos e grandes eventos fazem parte de uma oferta turística que se conecta diretamente com a cultura brasileira. (Serviços e Informações do Brasil)
Um exemplo frequentemente apresentado pelo Ministério do Turismo é Santa Cruz, no Rio Grande do Norte.
Uma pequena cidade que passou a receber visitantes atraídos pela estátua de Santa Rita de Cássia. Em levantamento divulgado pelo Ministério, o município registrava cerca de mil visitantes por dia e mais de 350 mil por ano. A movimentação passou a refletir diretamente na economia local, com hotéis, restaurantes, comércio de artigos religiosos, artesanato e outros serviços beneficiados pelo fluxo de visitantes. (Serviços e Informações do Brasil)
É uma demonstração importante:
um atrativo pode ser o ponto de partida para movimentar uma cadeia econômica muito maior.
Quando um visitante chega a uma pequena cidade motivado pela fé, ele não consome apenas a experiência religiosa.
Ele precisa chegar até o município.
Pode abastecer o veículo.
Pode tomar um café.
Almoçar em um restaurante.
Comprar um produto artesanal.
Conhecer outro atrativo.
Hospedar-se.
Contratar um serviço.
Levar uma lembrança para casa.
E, principalmente, pode retornar.
É justamente essa circulação que faz com que o turismo tenha potencial para ser uma ferramenta de desenvolvimento local.
Por isso, olhar para um atrativo turístico isoladamente pode ser um erro.
É preciso olhar para todo o ecossistema que se forma ao seu redor.
Existe uma vantagem competitiva importante nas pequenas cidades: a identidade.
Em muitos municípios menores, o visitante consegue perceber mais facilmente a relação entre território, comunidade, tradição e história.
Uma festa de padroeiro pode carregar décadas de memória.
Uma peregrinação pode fazer parte da identidade de uma comunidade.
Uma pequena capela pode representar a história de várias gerações.
Uma imagem religiosa pode ser muito mais do que um objeto: pode representar uma tradição familiar.
É justamente essa autenticidade que pode transformar um lugar comum em uma experiência turística.
E aqui existe uma diferença importante entre ter um atrativo e ter um destino turístico.
Ter um atrativo é possuir algo capaz de despertar interesse.
Ser um destino é estar preparado para receber quem foi atraído.
Isso envolve acesso, sinalização, atendimento, segurança, alimentação, hospedagem, informação, limpeza, organização, qualificação e comunicação.
Em 2016, desenvolvi o trabalho “Estratégias de Marketing Aplicadas ao Desenvolvimento Turístico de Quilombo-SC”, no qual analisei justamente a relação entre turismo, comunicação, infraestrutura e desenvolvimento econômico.
Naquele estudo, uma das conclusões foi de que não basta possuir potencial turístico: é necessário estruturar o destino antes de simplesmente tentar atrair visitantes.
A pesquisa também apontava que investimentos públicos e privados, melhoria da infraestrutura, qualificação do atendimento e estratégias de marketing deveriam caminhar conjuntamente.
A ideia continua atual.
Como escrevi naquele trabalho, “antes de receber turistas ou investidores, é necessário deixar o destino preparado para isso.”
Essa talvez seja uma das maiores lições para os pequenos municípios que desejam utilizar o turismo como ferramenta de desenvolvimento.
Não adianta divulgar aquilo que o município ainda não está preparado para entregar.
O marketing pode despertar o desejo de conhecer.
Mas é a experiência que faz o visitante recomendar, retornar e permanecer mais tempo.
O próprio movimento recente de Santa Catarina demonstra que o turismo religioso vem ganhando espaço também como estratégia territorial.
Em janeiro de 2026, foi sancionada a Lei Estadual nº 19.692, que instituiu a Rota Turística Religiosa Caminhos do Santuário, abrangendo os municípios de Jaraguá do Sul, Guaramirim, Massaranduba, Luís Alves, Ilhota, Gaspar, Brusque e Nova Trento. A legislação reconhece o percurso como área especial de interesse turístico. (Leis Alesc)
Outra iniciativa estadual recente foi a criação da Rota Turística Religiosa Caminho da Graça, instituída pela Lei Estadual nº 19.611/2025, envolvendo municípios como São Francisco do Sul, Araquari, Joinville, Guaramirim, Jaraguá do Sul, Corupá, São Bento do Sul, Rio Negrinho, Itaiópolis e Mafra. (Leis Alesc)
Essas iniciativas mostram uma mudança importante de pensamento.
O turismo não precisa necessariamente respeitar os limites administrativos de um município.
Uma cidade pode ser o ponto de partida.
Outra pode oferecer hospedagem.
Outra, gastronomia.
Outra, um patrimônio histórico.
Outra, um santuário.
E, juntas, podem formar uma experiência muito mais forte do que cada uma conseguiria oferecer isoladamente.
Santa Catarina já possui um exemplo consolidado.
Nova Trento, conhecida nacionalmente pela devoção a Santa Paulina, demonstra como a fé pode se transformar em um dos principais elementos de atração de visitantes.
O Ministério do Turismo já destacou o município como um dos destinos de turismo religioso de Santa Catarina, registrando centenas de milhares de visitantes motivados pela devoção ao santuário. (Serviços e Informações do Brasil)
O ponto mais importante, entretanto, não é simplesmente reproduzir o modelo de Nova Trento.
Cada município precisa descobrir qual é a sua própria história para contar.
Outro ponto que merece atenção é que uma pessoa pode viajar motivada pela fé e, ao mesmo tempo, consumir outros produtos turísticos.
Esse é um dos grandes potenciais do segmento.
Um visitante que chega para uma celebração pode ser convidado a conhecer uma cachoeira, um parque, um museu, uma propriedade rural, uma experiência gastronômica ou uma feira de produtos locais.
É possível transformar uma visita de algumas horas em uma permanência maior.
E uma permanência maior significa mais oportunidades para a economia local.
Essa integração entre atrativos é fundamental para pequenas cidades.
No caso de Quilombo, por exemplo, há anos já se identificava a existência de diferentes potenciais turísticos, como as águas termais e o Salto Saudades. A pesquisa que desenvolvi apontava justamente a necessidade de pensar o turismo de maneira integrada, estruturando os atrativos, os serviços e a comunicação do município como destino.
Hoje, essa discussão pode ser ampliada para novas experiências, inclusive aquelas relacionadas à religiosidade e à cultura das comunidades.
É importante parar de enxergar turismo apenas como uma secretaria responsável por eventos ou como uma atividade ligada ao lazer.
Turismo também é desenvolvimento econômico.
É oportunidade para pequenos empreendedores.
É geração de renda.
É valorização do comércio local.
É preservação cultural.
É incentivo à gastronomia.
É criação de experiências.
É possibilidade de novos investimentos.
E, principalmente para pequenos municípios, pode representar uma forma de fazer circular dentro da própria comunidade recursos que seriam gastos em outras localidades.
Mas para isso acontecer, é necessário planejamento.
Não basta construir um monumento.
Não basta realizar uma festa.
Não basta colocar uma placa.
Não basta publicar uma fotografia nas redes sociais.
É preciso construir um produto turístico.
E um produto turístico precisa de história, estrutura, atendimento, experiência e comunicação.
Essa foi uma das questões centrais da pesquisa que desenvolvi sobre Quilombo.
Um município pode possuir atrativos extraordinários e, ainda assim, ser pouco conhecido.
Se ninguém sabe que existe, dificilmente será visitado.
Por isso, comunicação e marketing não devem ser tratados como elementos secundários.
Eles precisam fazer parte da estratégia de desenvolvimento turístico.
Mas existe uma diferença entre divulgar e posicionar.
Divulgar é dizer que determinado lugar existe.
Posicionar é fazer com que as pessoas entendam por que deveriam conhecê-lo.
É contar uma história.
É criar uma identidade.
É apresentar uma experiência.
É transformar uma paisagem em memória.
É transformar uma celebração em tradição.
É transformar uma visita em desejo de retorno.
Talvez essa seja uma das maiores oportunidades.
Um pequeno município não precisa tentar ser uma nova Aparecida, uma nova Nova Trento ou uma nova Juazeiro do Norte.
Precisa descobrir aquilo que somente ele pode oferecer.
Pode ser uma tradição religiosa.
Uma festa.
Uma caminhada.
Uma capela histórica.
Uma manifestação cultural.
Uma paisagem.
Uma história familiar.
Uma gastronomia.
Uma combinação de experiências.
O turismo contemporâneo valoriza cada vez mais aquilo que é autêntico, diferente e capaz de proporcionar uma experiência.
E as pequenas cidades possuem muito disso.
O desafio é transformar potencial em produto.
Produto em experiência.
Experiência em lembrança.
E lembrança em retorno.
O turismo religioso tem uma característica particularmente interessante: ele possui um público que, muitas vezes, não está simplesmente procurando um lugar para passar algumas horas.
Existe uma motivação emocional.
Existe pertencimento.
Existe tradição.
Existe devoção.
Existe desejo de conhecer.
Isso cria uma oportunidade poderosa para os municípios.
Mas também aumenta a responsabilidade.
Quem chega precisa encontrar acolhimento.
A cidade precisa estar preparada.
Os empreendedores precisam compreender o perfil do visitante.
Os atrativos precisam estar organizados.
A comunicação precisa ser clara.
E o poder público precisa trabalhar em conjunto com a iniciativa privada e com a comunidade.
É essa soma de esforços que transforma um potencial em um verdadeiro destino turístico.
Talvez pequenas cidades não precisem procurar tão longe para encontrar novas oportunidades econômicas.
Às vezes, o potencial já está ali.
Está na igreja.
Na praça.
Na festa.
Na história.
Na paisagem.
Na gastronomia.
Na tradição.
Na fé.
O que falta, em muitos casos, não é necessariamente um novo atrativo.
É olhar para aquilo que já existe com uma visão diferente.
Planejar.
Estruturar.
Qualificar.
Comunicar.
E conectar.
O turismo religioso demonstra que a fé pode movimentar pessoas.
E pessoas movimentam cidades.
Movimentam restaurantes, hotéis, postos de combustível, mercados, lojas, artesãos, produtores rurais, transportadores e prestadores de serviços.
Por isso, discutir turismo nas pequenas cidades não é falar apenas sobre lazer.
É falar sobre desenvolvimento local, identidade, oportunidades e futuro.
E talvez esteja justamente aí a grande força dos pequenos municípios:
eles não precisam inventar uma identidade turística. Precisam reconhecer, valorizar e comunicar a identidade que já possuem.
Maikon Tiago Lunedo
Pesquisador e profissional da área de comunicação, marketing e desenvolvimento local
